Quando “furúnculos” não são apenas furúnculos
Lesões dolorosas recorrentes em axilas, virilha, nádegas ou abaixo das mamas que inflamam, drenam secreção e retornam repetidamente podem não ser apenas infecções isoladas.
A Hidradenite Supurativa (HS) é uma doença inflamatória crônica, recorrente e progressiva que acomete o folículo piloso e estruturas profundas da pele. Ela pode se manifestar por:
• Nódulos dolorosos profundos
• Abscessos recorrentes
• Drenagem persistente de secreção
• Formação de túneis subcutâneos (trajetos fistulosos)
• Cicatrizes espessas
Muitas pessoas passam anos tratando como “furúnculos repetidos”, sem diagnóstico adequado.
Critérios Diagnósticos
O diagnóstico é clínico e baseado em três pilares:
1️⃣ Tipo de lesão típica (nódulos, abscessos, túneis e cicatrizes)
2️⃣ Localização característica
3️⃣ Recorrência ao longo do tempo
Classificação Clínica – Hurley
A classificação tradicional utiliza o sistema de Hurley:
• Estágio I – Abscessos isolados, sem túneis ou cicatrizes extensas
• Estágio II – Abscessos recorrentes com formação de túneis
• Estágio III – Doença difusa com múltiplos trajetos interconectados
Embora amplamente utilizada, essa classificação é baseada apenas na avaliação clínica superficial.
Estadiamento por Ultrassom – Classificação de Wortsman
A ultrassonografia dermatológica de alta frequência permite um estadiamento mais detalhado da doença.
A radiologista chilena Ximena Wortsman desenvolveu uma classificação ultrassonográfica específica para Hidradenite Supurativa, baseada na identificação de:
• Nódulos inflamatórios
• Coleções líquidas (abscessos)
• Túneis fistulosos
• Conectividade entre lesões
• Atividade inflamatória subclínica
O estadiamento ultrassonográfico pode revelar doença mais extensa do que aparenta ao exame físico, permitindo:
✔ Reclassificação de gravidade
✔ Identificação precoce de túneis
✔ Planejamento terapêutico mais preciso
✔ Melhor indicação cirúrgica
Em muitos casos, pacientes classificados clinicamente como estágio I podem apresentar achados ultrassonográficos compatíveis com estágios mais avançados.
Importância da Alta Frequência (>15 MHz)
Para avaliação adequada da Hidradenite Supurativa, o exame deve ser realizado com transdutores de alta frequência, idealmente acima de 15 MHz.
Frequências mais baixas, utilizadas em ultrassonografia convencional, não oferecem resolução suficiente para análise detalhada das camadas superficiais da pele.
O ultrassom dermatológico de alta frequência permite:
🔬 Visualização milimétrica
🔬 Identificação de abscessos profundos não palpáveis
🔬 Mapeamento completo de túneis
🔬 Avaliação de atividade inflamatória
Exame por Região ou Mapeamento Corporal?
O exame pode ser realizado por região sintomática.
Entretanto, para estadiamento adequado, o ideal é realizar mapeamento completo das áreas de predileção da doença, permitindo:
• Avaliação global da extensão
• Identificação de lesões subclínicas
• Estadiamento ultrassonográfico correto
• Melhor planejamento terapêutico
Seguimento e Planejamento Cirúrgico
A Hidradenite Supurativa é crônica e requer acompanhamento. O ultrassom permite:
• Monitorar resposta ao tratamento
• Avaliar redução de atividade inflamatória
• Identificar progressão
• Planejar cirurgia com maior precisão
Nos casos cirúrgicos, o mapeamento ultrassonográfico reduz risco de recorrência ao delimitar adequadamente a extensão dos trajetos fistulosos.
Uma palavra para você que convive com essa dor: Se você vive ciclos repetidos de dor, inflamação e drenagem, se já tentou múltiplos tratamentos ou sente-se com uma severa frustração pela recorrência, saiba que existe avaliação detalhada, estadiamento adequado e planejamento terapêutico individualizado.
O diagnóstico correto muda o curso da doença e o conhecimento da extensão real é o primeiro passo para o controle.
Dra Luciana Fontenele – Radiologista
CRM 23129 • RQE 11967/11968
